Crônica sobre um dia qualquer

São cinco pras seis de uma manhã de sábado gelada. No fundo do meu sono pesado, ouço um choro de criança e levo algum tempo até perceber que é meu filho que me chama. Chego no quarto e vejo que, como sempre, conseguiu se livrar da coberta. Sua fralda também está cheia, o que causa grande desconforto. Apesar disso, assim que me vê, ele abre aquele sorriso que eu tanto amo. Sei que é o início de mais um dia cansativo, e que ao fim estarei acabada, e ainda assim imensamente realizada.

Depois de trocar a fralda, me preparo para amamentar. Enquanto mama, ele me encara e eu sustento o olhar, segurando sua mãozinha. Adoro seus olhinhos apaixonados para mim. Quando acaba, ele se aninha ainda mais em meus braços, daquele jeito que é só comigo e me sorri de novo. Um sorriso cheio de gratidão e de amor. Meu coração derrete pela milésima vez.

Coloco-o em minha cama, e deito ao seu lado. Ofereço minha mão para sua adorada brincadeira e percebo que de repente se distrai com os próprios dedos, aqueles dedinhos que tantas vezes eu mesma já contei, só por insistência, e que até ontem ele não sabia que existiam. Lembro-me de que há três dias atrás, segurar objetos era tão mais difícil e que aos poucos ele faz movimentos com os braços com mais destreza. Penso que está passando tão rápido, que em pouco tempo ele estará preferindo os amigos a mim e que já não será mais o meu bebêzinho. Meus olhos se enchem de lágrimas e anoto mentalmente que preciso devorar cada segundo, para ter os momentos vivos na memória.

Ele segura novamente minha mão e adormece, mais um momento tão intímo a que já estamos acostumados. Enquanto escuto sua respiração tão tranquila, nino seu sono, analiso seu rosto, o rosto mais lindo que já vi e me dou conta que de vez em quando, meu amor de mãe é um pouco egoísta: por que eu não suportaria vê-lo sofrer, eu cuido tanto para que nada de ruim aconteça e por que eu não viveria mais sem ele, eu o protejo tanto.

Meu filho acorda e novamente me sorri – ah, como eu amo esse sorriso! – e eu sei que está na hora de mais uma maratona banho/ troca de roupa/preparação para passeio, tudo um ritual que, por vezes me desgasta. De novo, penso que em tudo ele depende de alguém, mas que não será sempre assim. Em pouco tempo, estaremos com outras pessoas e então meu bebê será um pouquinho de todo mundo. Meu amor egoísta mais uma vez me lembra de que seu sorriso apaixonado nem sempre será só para mim e que um dia eu já não caberei em seu caminho e em seus sonhos. Meu coração de mãe se aperta, mas tento me convencer que esse é o andar natural das coisas.

Como em todos os dias, eu agradeço a ele e a Deus por ser um filho tão abençoado, tão saudável e iluminado. Repito, de novo e quantas vezes forem necessárias, que é meu bebê, meu príncipe, meu amor, meu coração e que o amo além da conta. E acrescento: você só entenderá quando tiver seus filhos, muitas vezes me repreenderás como tua mãe, mas ainda assim eu te amarei mais do que eu acho que posso suportar!

Ele sorri – ah, meu bebê sorriso, como és feliz! – como se me entendesse e começa a dizer coisas. Ok, ele não diz nada exatamente, mas faz aqueles sons que nos permitem longas conversas. Eu o pego em meu braços para mais um abraço, e ele repousa a cabeça em meu ombro. Penso, de novo, que meu amor é infinto e que eu não viveria sem ele, que entre tantas coisas no mundo que eu poderia fazer, estar com ele é a melhor de todas. Agradeço de novo. Meu filho, em tão pouco tempo, já me fez aprender coisas sobre mim que eu desconhecia. E dá um novo sentido a minha existência, e então eu entendo que ser sua mãe é a melhor parte de mim.

 

Segunda Carta para João Otávio

Meu anjo João Otávio

 

Há quase dois meses eu penso que já deveria ter te escrito. Eu queria te desejar boas vindas e te dizer que a vida nem sempre é justa, mas será muito boa. E quero te dizer um monte de coisas, tantas que às vezes se confundem e se perdem na minha mente.

Eu te esperei desde o dia que soube que você havia sido concebido. Rezei imensamente para que você fosse uma criança saudável e tranquila. Sonhei com seu rosto e tentei imaginar com quem você se pareceria. Pois Deus me presenteou com um bebê melhor do que eu pedi.

A primeira vez que te vi, já te amei de um jeito absurdo. Na verdade, nem sei dizer se é amor. Acho que essa coisa que eu sinto é tão pura, tão forte, tão especial e diferente de tudo que deveria ter outro nome, porque a palavra amor não explica. Mas vamos chamar assim, de amor, por falta de um verbete melhor.

Mas confesso que amor não foi o sentimento mais forte. Eu senti uma necessidade gritante de te proteger e cuidar de ti. Todos os dias eu te olho e penso que você é tão pequeno, tão indefeso e precisa tanto de mim. Isso faz meu coração apertar. E justamente por isso, que desde que você nasceu eu sinto mais vontade de cuidar de mim, porque sei que não posso te faltar.

E você assim, na sua fragilidade me tornou uma pessoa mais forte e corajosa. Antes eu tinhas tantos medos, e agora só o que me aflige é te perder. Faz tão pouco tempo que você chegou e eu nem consigo imaginar o que seria da minha vida sem você.

Nesses quase dois meses eu aprendi a te conhecer, a ler tuas expressões, a diferenciar teu choro e é como se eu te conhecesse durante toda a minha vida. Eu sinto que tudo o que me trouxe até sua chegada aconteceu para que eu me preparasse para ser tua mãe. E essa sensação me torna uma mulher melhor.

Todos os dias quando você sorri, aquele sorriso tão cheio de verdade, tão sincero, faz meu coração derreter e me dá ânimo para mais um dia cheio de surpresas e, muitas vezes, de cansaço. Ah e quando você chora, meu amor, meu coração despedaça. Minha dor passou a ser a que você sente, e se eu pudesse, eu juro, sentiria doer em mim pra te poupar de qualquer sofrimento. É como se diariamente eu morresse um pouco: se não de amor, é de susto.

Ah meu pequeno, eu te amo tanto, tanto! Eu te olho e agradeço aos céus pela oportunidade de ser tua mãe. E eu vejo que do seu jeitinho, sem nem saber o que é isso que você sente, você também me ama. É como se você fosse uma extensão de mim, uma parte melhor do que eu sou. Quem me conheceu antes de você chegar talvez nem acredite que eu tenha deixado tantas coisas de lado pra te receber em minha vida. Você ocupa cada pedaço do meu coração e do meu tempo, mas é tão prazeroso acompanhar teu desenvolvimento que nada me faz falta.

Eu tento imaginar como você será, ao mesmo tempo que quero devorar cada segundo de sua vida de neném, para me lembrar de tudo no futuro. E penso que, talvez um dia, o mundo te fará sofrer ou alguém partirá teu coraçãozinho, e isso dói tanto, meu amor! Ah, como eu queria que você nunca sofresse. Eu quero que você seja tão feliz, e sinto que você já é! Você é tão abençoado e tranquilo, e nos trouxe tanta felicidade!

Meu anjo João Otávio, que bom que você chegou. Que Deus te abençoe todos os dias e que te permita uma vida próspera. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que sempre carregue o sorriso mais lindo do mundo nesse rostinho perfeito. Mamãe te ama cada dia mais.

Carta para João Otávio

Meu filho amado

Tenho tido uma certa dificuldade em dizer em voz alta muitas das coisas que eu queria que você soubesse desde já. Mas entenda que a mamãe consegue expressar melhor o que sente escrevendo, então aqui vai uma carta para você saber tudo o que eu quero te dizer.

Desde que soube da sua chegada, você se tornou a pessoa mais importante da minha vida e tenho me preparado para ser uma mãe maravilhosa. Mas por favor, tenha paciência comigo: muitas vezes eu vou errar, ficar impaciente e não terei muita ideia do que realmente tenho que fazer para ser a melhor mãe que você merece ter.

Posso ser desajeitada, esquecida, atrapalhada, mas te garanto boas  risadas e um certo divertimento nas horas em que você não se incomodar com minha distração.

Vou te ensinar meus valores, te educar  e garantir que você esteja protegido, para que saiba fazer boas escolhas. Em alguns momentos, vou ser rígida e meio durona. Mas entenda que, nesses  momentos, minha dureza e pulso firme serão minha maior prova de amor.

Em outros momentos, vou deixar você cair  e você vai se machucar. Mas isso te ensinará que a vida é isso: um eterno cair e levantar e que as
feridas cicatrizam. E depois de cicatrizadas, nos deixam mais fortes e corajosos, além de aprender que, apesar das quedas, a vida é sempre um espetáculo a ser vivido. Ah! E eu sempre estarei lá  pra te ajudar a levantar, para que você saiba que nunca estará sozinho.

Vou te colocar para dormir, ninar teu sono, te levar pra passear e  aproveitar todo o tempo que estivermos juntos para que você valorize estar com sua família, e que ame isso!

Vou ler histórias e te ensinar o quanto os livros fazem diferença na nossa vida. E vou te deixar andar de skate, bicicleta, subir em árvores, pra saber que a vida pode ser uma aventura.

Vou incentivar teus sonhos, ouvir tuas opiniões e argumentos, te ajudar a ser quem você queira ser daqui a uns anos, mesmo que isso não seja exatamente o que eu quis pra você. Aliás, o que eu quero realmente é que você seja um filho amoroso, tranquilo, uma pessoa de caráter, boa índole, honesto e com bons valores – tudo o que eu e seu pai somos e nossa maior herança pra você.

Vou te defender e proteger sempre, mas vou te deixar aprender que muitas vezes somos nós quem precisamos defender a nós mesmos.

Quero que saiba que foi um bebê muito esperado e abençoado desde o início, tanto pelo papai e mamãe, quanto pelos vovôs e vovós e seus tios e tias. Sua chegada é uma grande emoção pra gente e estamos te esperando, muito gratos por você  ser parte dessa família, que não é perfeita, mas que já te ama demais.

E o mais importante de tudo: quero te dizer que você é a soma de duas pessoas que se (e te) amam muito. Vamos te amar mais a cada dia, com todas as nossas forças e vamos fazer tudo o que pudermos para sermos o nosso melhor, mesmo que às vezes você ache que deveríamos ter feito diferente.

Um grande beijo!
Mamãe.